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domingo, 8 de maio de 2011

Grávida pode engravidar?

É raro, mas acontece. Uma mulher pode carregar fetos não gêmeos na mesma gestação. Em sua coluna de maio, Jerry Borges explica o fenômeno da superfetação e fala de sua possível ligação com iniciativas de reprodução assistida.
Por: Jerry Carvalho Borges  (Ciência hoje)
Publicado em  http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/por-dentro-das-celulas/o-raio-que-cai-duas-vezes-no-mesmo-lugar




Em uma reviravolta do organismo, é possível uma mulher engravidar mesmo já estando grávida. Esse fenômeno, denominado superfetação, pode trazer riscos para a mulher e o bebê. (foto: Jeinny Solis S./ scx.hu)



É possível uma grávida engravidar? A resposta mais óbvia para essa pergunta é negativa. Contudo, a ocorrência desse fenômeno ainda pouco estudado pela ciência e conhecido como superfetação pode surpreender muitos e dar pistas sobre os processos associados à reprodução humana.
A superfetação é um evento raríssimo em que ocorre a gestação simultânea de dois embriões em estágios de desenvolvimento diferentes em uma mesma fêmea. Isto só acontece se ela for capaz de ser fecundada mesmo já tendo um embrião em gestação em seu útero.
Para isso, a fêmea grávida deve ovular (na verdade, ovocitar, pois a célula liberada pelo ovário é um ovócito e não um óvulo) no ciclo seguinte ao qual engravidou pela primeira vez. Isso pode, a princípio, parecer simples. Contudo, não o é...
Apesar da ovocitação ocorrer a cada mês, esse processo é normalmente interrompido durante a gravidez devido à regulação da reprodução por meio da ação orquestrada de uma série de hormônios produzidos pelo organismo feminino.
Um desses compostos hormonais – o hormônio liberador de gonadotropina (GnRH) – é produzido pelo hipotálamo, uma região localizada na porção central inferior do encéfalo. Ele é conhecido por exercer um controle sobre a glândula hipófise anterior ou adenohipófise que, por sua vez, comanda a secreção hormonal de outras glândulas do organismo.
O GnRH exerce controle sobre a secreção dos hormônios da adenohipófise denominados folículo estimulante (FSH) e luteinizante (LH). O FSH age sobre os folículos ovarianos, ativando a meiose do ovócito e a mitose e diferenciação das células associadas ao futuro gameta feminino. Já o LH estimula a ovocitação, tornando o ovócito apto para ser fecundado por um espermatozoide.

Também sob estímulo do FSH e, principalmente, do LH, desenvolve-se no local onde ocorreu a ovocitação uma glândula endócrina provisória conhecida como corpo lúteo.  O  corpo lúteo produz os hormônios 17β-estradiol e níveis elevados de progesterona. Esses hormônios esteroides mantêm a camada interna do útero ou endométrio preparada para receber e sustentar o embrião.
A progesterona também atua sobre o muco localizado na abertura do útero (cérvix), que se torna viscoso, impedindo assim a penetração de outros micróbios e de espermatozoides no interior uterino. Além disso, esse hormônio ovariano também inibe a produção de GnRH e de FSH, bloqueando, assim, o desenvolvimento de novos ovócitos.
Se a fecundação não ocorre, o corpo lúteo perdura durante alguns dias, desaparecendo ao final do ciclo menstrual. Contudo, se a fecundação e o desenvolvimento embrionário ocorrem, o corpo lúteo permanece ativo por várias semanas. Após o desenvolvimento da placenta, essa estrutura passa a ocupar o lugar do corpo lúteo secretando progesterona. Portanto, pode-se dizer que uma nova ovocitação não ocorre se o corpo lúteo ou a placenta estiverem presentes.

Na contramão

A ocorrência de uma nova gravidez em uma mulher já grávida depende da manutenção do desenvolvimento do primeiro ovócito fecundado, um processo que, por sua vez, depende da progesterona. Se esse hormônio é eliminado do organismo feminino grávido, ocorre o aborto do embrião em gestação. Por outro lado, se os seus níveis são mantidos, ocorre uma inibição no desenvolvimento de novos gametas femininos.
Assim, a superfetação depende da ocorrência de algo que o ciclo reprodutivo feminino está intrinsecamente programado para evitar.

Além disso, para que uma gravidez progrida, o embrião deve ser capaz de se implantar corretamente no útero. Para isso, é necessário que haja espaço suficiente e que o organismo produza um ambiente específico controlado pelos hormônios femininos, algo que ocorre somente durante a ovocitação e que é impedido pela presença de um embrião já implantado.
Portanto, para que a superfetação ocorra em nossa espécie, é necessário que eventos aparentemente impossíveis ocorram: a ovocitação deve ocorrer durante uma gravidez já estabelecida, o sêmem precisa ser capaz de atravessar a barreira produzida pelo muco cervical e de superar todos os perigos presentes no ambiente inóspito do interior do útero, e, por fim, fertilizar o ovócito e este, se implantar corretamente no endométrio uterino.

Raridade

A superfetação não deve ser confundida com a superfecundação, que é a ocorrência de duas ou mais fecundações simultâneas por espermatozoides de pais diferentes. Na verdade, a superfetação é um tipo específico de superfecundação que ocorre em ciclos reprodutivos diferentes.
A superfetação já foi reportada em várias espécies de animais. Texugos, martas, panteras, búfalos, lebres europeias e alguns cangurus apresentam casos de superfetação e é provável que existam muitas outras espécies que, pelo menos ocasionalmente, tenham proles com filhotes com idades gestacionais diferentes. Contudo, o fenômeno é extremamente raro em humanos, tendo sido descritos apenas cerca de 10 casos até o momento.
A superfetação já foi reportada em várias espécies de animais, inclusive em texugos (na foto). Mas o fenômeno é raro em humanos, tendo sido descritos apenas cerca de 10 casos até o momento. (foto: Kókay Szabolcs/ Wikimedia Commons)

Ovocitações múltiplas são muito raras em nossa espécie e, atualmente, estão associadas ao uso de medicamentos que induzem esse processo para fins reprodutivos em pacientes que tenham problemas reprodutivos. Além disso, elas costumam ocorrer em dias próximos.
Ovocitações com diferença de vários dias ou mesmo de semanas são episódios raríssimos. Talvez o mais famoso desses eventos seja a gravidez da estadunidense Julia Grovenburg, que concebeu em 2009 duas crianças com duas semanas e meia de diferença.
Como tratamentos contra a baixa fertilidade alteram o delicado equilíbrio hormanal associado à reprodução, não é surpreendente que alguns dos casos de superfetação já descritos ocorreram em mulheres que se submeteram a esses procedimentos.
Uma pesquisa realizada pela equipe de Adele Harrison, do Centro da Saúde das Mulheres e das Crianças de Columbia Britânica, no Canadá, pode ser citada como exemplo. Nesse estudo, foi descrito um caso de superfetação em uma paciente de 32 anos que havia se submetido a uma transferência embrionária que gerou a gestação de dois gêmeos.
Aparentemente, alterações hormonais podem ter propiciado condições para que uma nova gravidez ocorresse três semanas após a implantação dos primeiros embriões.
Segundo alguns pesquisadores, a exposição a condições não naturais, como aquelas que ocorrem em tratamentos contra a infertilidade, pode afetar a fisiologia reprodutiva feminina. Por exemplo, está documentado que a superestimulação dos ovários em tratamentos reprodutivos pode resultar em alterações nos ciclos reprodutivos femininos seguintes, mesmo se tiver ocorrido o início de uma gravidez.
A superfetação também pode ocorrer quando a mulher possui, por conta de alguma anomalia ocorrida durante o seu desenvolvimento, dois úteros.
Um dos riscos da superfetação é que a segunda criança nasça prematuramente, podendo ter, por exemplo, problemas no desenvolvimento de seus pulmões. Além disso, há um risco maior de o novo ovócito fecundado não se implantar no local correto, já ocupado pelo primeiro embrião. Desse modo, há um risco de uma gravidez ectópica, na tuba uterina ou em outro local incorreto, gerando aborto espontâneo e risco de morte para a mãe. 
Embrião humano de oito semanas na tuba uterina, resultante de uma gravidez ectópica. Esse é um dos riscos envolvidos na superfetação. (Ed Uthman, MD/ CC BY 2.0)

A possibilidade de ocorrência da superfetação nos faz supor que existem diversos fatores e aspectos da reprodução humana que ainda desconhecemos e que podem estar sendo afetados por iniciativas de reprodução assistida.
Estudos em animais que apresentem casos de superfetação talvez possam dar pistas para esclarecer alguns dos mistérios associados à ocorrência desse tipo de reprodução.

Jerry Carvalho BorgesDepartamento de Medicina Veterinária
Universidade Federal de Lavras








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